Fazenda das Águas JM
Noticia:
VEJA OS FATORES QUE INFLUENCIAM A PRODUÇÃO DE EMBRIÕES EM ÉGUAS DOADORAS
Gustavo M. Gomes & Letícia P. M. Gomes
Centro Avançado de Reprodução Eqüina, Vassouras, RJ, Brasil
bigugomes@gmail.com

Resumo
O uso da técnica de transferência de embriões (TE) em eqüinos tem crescido muito nos últimos anos, sendo os Estados Unidos, o Brasil e a Argentina os países que mais realizam a técnica no mundo. Inúmeras são as vantagens da utilização da técnica de TE em eqüinos e, por esse motivo, a maioria das associações de criadores de cavalos permite o uso da TE, reconhecendo seus benefícios. No entanto, cabe ao profissional esclarecer e orientar o criador quanto ao seu uso, já que o sucesso na implantação de um programa de TE é influenciado por vários fatores. Dentre estes podem ser citados: a) dia da colheita em relação à ovulação da doadora; b) características da doadora como condição uterina e idade; c) manejo reprodutivo como o controle de desenvolvimento folicular e ovulação, nutrição e a sanidade das doadoras; d) qualidade do sêmen utilizado; d) habilidade do técnico; e) outros fatores como as variações climáticas, número de ovulações e adaptação da doadora na central. Os fatores citados podem exercer influência sobre taxa de recuperação embrionária.

1. Introdução
O uso da técnica de transferência de embriões (TE) tem crescido muito nos últimos anos. Os Estados Unidos, o Brasil e a Argentina são os países que mais realizam TE eqüina no mundo. Hoje, quase a totalidade das associações de criadores de cavalos permite o uso da técnica de transferência de embriões, reconhecendo os benefícios da mesma. Com o intuito de maximizar o sucesso de um programa de TE em eqüinos, torna-se essencial o conhecimento dos fatores que afetam a taxa de recuperação embrionária que incluem principalmente o dia da recuperação do embrião, o histórico reprodutivo da égua doadora, o garanhão e a manipulação do sêmen (Squires, 2005).
Inúmeras são as vantagens da utilização da técnica de TE em eqüinos e cabe ao profissional esclarecer e orientar o criador em que situações é melhor utilizá-la.
O objetivo do presente trabalho é discutir os fatores que podem interferir na recuperação de embriões baseado nos resultados obtidos na estação de monta 2007-2008 no Centro Avançado de Reprodução Eqüina em Vassouras (Latitude de 22º24'14" S; Longitude de 43º39'45" W; Altitude de 434 m) - RJ, Brasil.

2. Fatores que influenciam a taxa de recuperação embrionária
A taxa de recuperação embrionária por égua é a porcentagem de embriões coletados por lavado uterino. A maioria dos embriões recuperado são oriundos de ovulações simples espontâneas, resultando em uma taxa de 50% de embrião recuperado por tentativa (Squires, 2005). A taxa de recuperação embrionária é muito importante para o sucesso na implantação de um programa de TE e pode ser influenciada por vários fatores, como os descritos abaixo:

2.1. Dia da colheita
Geralmente a recuperação embrionária é realizada entre os dias 7 (D7) e 8 (D8) após a ovulação (D0), exceto quando se deseja congelar o embrião. Neste caso, a recuperação embrionária deverá ser realizada no 6º dia (D6) após a ovulação, tendo um decréscimo de 10% a 15% no índice de recuperação embrionária (Squires, 1995). O D8 é considerado o dia ideal para a coleta, entretanto recomenda-se o D6 ou D7 para doadoras que apresentam infecção uterina e D9 para éguas idosas.

2.2. A doadora
Características da própria doadora, como a condição uterina e a idade, são fatores importantes e que influenciam na taxa de recuperação embrionária.
As éguas idosas podem constituir uma grande parte do contingente de doadoras de embriões, principalmente quando se trata de éguas de genética superior previamente comprovada na reprodução pela progênie apresentada (Alonso et al., 2005).
Em relação à taxa de recuperação de embriões, observa-se uma queda de acordo com a idade da doadora. Em éguas jovens (2 a 4 anos) a média de recuperação embrionária é de 85%; em éguas adultas (4 a 18 anos) de 64,4% e para éguas velhas de 24,1% (Squires, 1995)
Há uma significativa redução na taxa de recuperação embrionária de éguas sub-férteis em relação às clinicamente normais. Normalmente, um potro vale o dobro do custo da transferência de embrião, e em caso de éguas subférteis e/ou idosas, esse custo pode ser três vezes mais. No entanto, em algumas situações, o criador deseja descendentes dessas éguas não se importando com o custo, mas simplesmente por acreditar que esses animais possam ser geneticamente superiores e com melhor aproveitamento zootécnico. Estudos comprovam que embriões recuperados de éguas sub-férteis são menores e possuem mais defeitos morfológicos do que os embriões de éguas férteis.
As falhas reprodutivas observadas em éguas velhas estão normalmente associadas a distúrbios da ovulação e maturação oocitária associadas ou não à endometrite crônica, bem como distúrbios hormonais (deficiência de FSH, LH, E2, T4, etc). Uma das possíveis causas de distúrbio hormonais seria mau funcionamento da glândula tireóide, que pode ser diagnosticada por dosagem hormonal em que os valores de T4 total estão abaixo do normal (valores normais 12-25 ng/ml) que, associada ao quadro clínico poderia caracterizar um animal com hipotireoidismo. Alguns sintomas são endometrites crônicas, distúrbios de ovulação, obesidade (metabolismo baixo), baixa recuperação embrionária, perdas embrionárias precoce, associadas ou não a idade avançada.
Se forem animais em atividade esportiva podem apresentar baixa queda na performance, anormalidades sistêmicas, fraquezas e miopatias (Bet Laboratories).

2.3. Manejo reprodutivo
- Controle folicular: O controle folicular eficiente tem papel fundamental em um programa de TE. É necessário que seja diário para as doadoras podendo ser a cada 48 horas para as receptoras. O uso do aparelho de ultra-sonografia é recomendado para se detectar com exatidão o momento da ovulação. Visando obter bons índices de recuperação de embriões, recomenda-se no caso de monta natural ou inseminação artificial com sêmen fresco que seja realizada a cada 48 horas, para o sêmen resfriado a cada 24 horas e preferencialmente utilizar sêmen com até 24 horas de refrigeração. Utilizar hCG ou GnRH para induzir a ovulação, pois desta forma apenas uma IA é necessária, antes da ovulação ou eventualmente até 6 horas após, especialmente quando se utiliza sêmen congelado.
- Nutrição: Uma alimentação de qualidade é fundamental tanto para doadora quanto para a receptora. A deficiência alimentar das receptoras é um dos principais problemas relacionados a TE, já que estas éguas necessitam alimentação balanceada tanto quanto as doadoras, elevando os custos da técnica.
- Sanidade: As doadoras e receptoras necessitam ser vacinadas e vermifugadas regularmente de acordo com as necessidades recomendadas.
O exame detalhado através da ultra-sonografia é necessário para detectar a ovulação, bem como avaliar se há resquício ou excesso de resposta inflamatória (fluido uterino) após a IA. O ultra-som é indispensável para a avaliação das condições uterinas de receptoras no momento da inoculação, aumentando a chance de êxito.

2.4. Garanhão
Geralmente se observa uma grande influência do garanhão em relação à recuperação embrionária, visto que alguns animais apresentam sêmen de qualidade e fertilidade melhor quando comparados a outros.
Se a opção é utilizar um garanhão de fertilidade conhecidamente baixa recomenda-se esclarecer desde o início ao proprietário da doadora que os índices esperados da técnica poderão ser abaixo da média em relação a um garanhão com sêmen com qualidade boa.
Se não houver conhecimento prévio da fertilidade do garanhão e por ventura ocorrerem dois lavados negativos sucessivos (sem recuperação de embrião), recomenda-se substituir o garanhão para se eliminar a suspeita de que o reprodutor em questão seja o problema.
Os efeitos do garanhão podem ser minimizados com utilização de reprodutores com fertilidade comprovada. Em um estudo realizado por Fleury et al., (1997) observou-se diferença significativa entre cinco garanhões utilizados, cujo resultado de recuperação embrionária variou de 28,6% a 84,2%.
Outro fator de grande influência na fertilidade se refere ao sistema que se encontra acondicionado o sêmen que será utilizado para inseminação nas doadoras, seja sêmen fresco, refrigerado ou congelado, lembrando-se que o índice de recuperação embrionária diminui quando se utiliza sêmen refrigerado ou congelado comparado ao sêmen fresco.
No Brasil, por suas características geográficas (dimensão continental) o uso do sêmen refrigerado transportado se torna cada vez mais necessário, principalmente pelo número de proprietários que apresentam condomínios de garanhões.

2.5. Técnico
O técnico tem influência direta nos resultados do programa de transferência de embriões através do conhecimento, experiência e destreza em relação à realização da técnica.

2.6. Outros fatores
Fatores como as variações climáticas, número de ovulações e a adaptação da doadora na central de reprodução também são importantes, pois influenciam na taxa de recuperação embrionária e muitas vezes passam despercebidos.

2.6.1. Variações nas condições climáticas
Nos últimos anos, inúmeras variações climáticas têm sido observadas em todos os continentes, como conseqüência das mudanças no meio ambiente, causadas pela poluição, efeito estufa, desmatamento, queimadas, etc. As estações do ano eram bem definidas e hoje se pode observar em alguns momentos períodos de seca durante época de chuva e até mesmo índices pluviométricos acima da média durante a estação de monta. Esses fatores, bem como períodos de seca prolongados podem atrasar o início do da estação de monta (como observado no início da estação de monta de 2007). Estas mudanças climáticas podem influenciar as taxas de recuperação embrionária ao longo da estação de monta como demonstrado na tabela 2..
Durante a estação de monta de 2007-2008 foram realizados 426 lavados no Centro Avançado de Reprodução Eqüina. Os dados estão demonstrados nas tabelas 1 e 2.

Tabela 1: Índice de lavados positivos em relação aos meses da estação de monta.

Setembro Outubro Novembro Dezembro Janeiro Fevereiro Março Abril
72%a
(5/7) 73%a
(31/42) 72%a
(60/83) 55%ab
(44/79) 67%a
(37/55) 46%ab
(28/60) 48%ab
(34/70) 36%b
(11/30)
a,b letras diferentes diferem estatisticamente (p<0,05) Teste exato de Fisher


Tabela 2: Comparação entre as taxas de lavados positivos entre os meses de índices pluviométricos normais e os meses atípicos de média de chuva na Região de Vassouras/RJ.

Meses com índices pluviométricos normais
(Setembro, Outubro, Novembro,
Dezembro, Janeiro) Meses atípicos com chuva acima da média
(Fevereiro, Março, Abril)
66% a
(177/266) 45% b
(73/160)
a,b letras diferentes diferem estatisticamente (p<0,05) Teste exato de Fisher
* Dados fornecidos pelo Observatório Magnético de Vassouras/RJ

Ao analisar a tabela 2 pode-se observar que houve influência dos índices pluviométricos na taxa de recuperação embrionária (p<0,00001).
Outro fato observado que poderia ser influenciado pelas alterações climáticas seria o aumento na incidência de folículo hemorrágico durante a estação de monta, cujos dados estão representados na tabela 3. Normalmente o índice de formação de folículo hemorrágico varia de 2 a 8% sendo observado com menor freqüência durante a estação reprodutiva e com maior incidência tanto no início quanto no final da estação de monta (McCue & Squires, 2002).

Tabela 3: Incidência de folículo hemorrágico ao longo da estação de monta.
Setembro Outubro Novembro Dezembro Janeiro Fevereiro Março Abril
0% 2,3% 2,35% 2,4% 6,7% 11,7% 5% 6%
(0/7) (1/43) (2/85) (2/81) (4/59) (8/68) (4/74) (2/32)

2.6.2. Número de ovulações
Se a égua doadora apresentar dupla ovulação, as chances de recuperação de embrião aumentam. Sabe-se que a chance de recuperar dois embriões de uma égua que apresentou dupla ovulação é maior quando as ovulações ocorrerem em ovários diferentes (ovulações bilaterais) comparadas a ovulações em um só ovário (ovulações unilaterais).
A possibilidade de induzir ovulações múltiplas em éguas utilizando Extrato de Pituitária eqüina ou FSHe purificado eqüino, visa obter mais de um embrião por coleta na dependência da dose utilizada. No caso de baixa dose, objetiva-se obter pelo menos um embrião por coleta.

2.6.3. Adaptação do animal (Central de embriões)
Quando há mudança de local de alguma doadora de embriões para outra região com condições climáticas (temperatura, umidade e luminosidade) muito diferente a que está adaptada (exemplo da região sul para o nordeste) é necessário um tempo de adaptação de duração variável para cada individuo. Sendo em alguns casos, necessário até um ano, o que pode levar a perda da estação. Nas adaptações mais prolongadas o animal apresenta ciclos irregulares, baixo índice de recuperação embrionária, e em casos extremos pode entrar anestro.
3. Considerações finais
A influência do sêmen resfriado, bem como a adaptação da doadora e garanhão nas centrais de TE são de extrema relevância no resultado de recuperação embrionária. Pôde-se observar grande influência do clima nos índices de recuperação embrionária, sendo necessários mais estudos ao longo de outras estações de monta para sabermos se foi um evento ocorrido somente na região de Vassouras, no estado do Rio de Janeiro ou ocorreu em todo Brasil, bem como se vai haver repetição ou não nas próximas estações de monta.

Agradecimentos
Os autores agradecem à Antonio Silvio Medeiros (Biotech Botucatu) por ter realizado a analise estatística.

4. Referências bibliográficas

Alonso, M. A.; Fleury, P. D. C.; Neves Neto, J. R.; Machado, M. S. Efeito da idade da égua doadora na taxa de perda embrionária. Acta Scientiae Veterinariae, v. 33 (Supl 1), p.204, 2005.

Fleury, J.J. Pinto, A.J., Arruda, R.P., Madureira, E.H., Lima, C.G. Efeitos do garanhão e técnica reprodutiva sobre os índices de recuperação e gestação em um programa de transferência de embriões em eqüinos da raça Mangalarga. Anais... Arq. Fac. Vet.. UFRGS, v.25, n.1, p.226,1997.

Losinno, L & Alvarenga, M. A. Fatores críticos em programas de transferência de embriões em eqüinos no brasil e Argentina. Acta Scientiae Veterinariae.v. 34 (Supl 1), p.39-49, 2006.

McCue, P. M. & Squires, E. L. Persistent anovulatory follicules in the mare. Theriogenology, v.58, p.541-43, 2002.

Squires, E. L. Perspectiva para o uso de Biotecnologias na reprodução eqüina. Acta Scientiae Veterinariae, v. 33 (Supl 1), p. 69-82, 2005.

Squires, E.L, Seidel, G.E.Jr. Collection and transfer of equine embryos. Animal reproduction and Biotechnology. Laboratory Bulletin, , n. 08, p.27-31, 1995.

FONTE - DRº GUSTAVO MENDES GOMES.
REPRODUÇÃO SOMENTE COM AUTORIZAÇÃO.


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